Como evitar o surgimento de uma classe de pessoas inaproveitáveis na sociedade?


O historiador Yuval Noah Harari prevê que uma classe de pessoas inaproveitáveis vai surgir até 2050. Ele diz que, assim como a revolução industrial fez surgir uma classe de trabalhadores, a revolução da inteligência artificial vai fazer surgir uma classe de não-trabalhadores. Ou seja, essa classe não vai ser somente de desempregados, mas de não-empregáveis.

Eu sei que parece uma previsão exagerada, daquelas sensacionalistas, mas vários outros pesquisadores já afirmam que muitas profissões que conhecemos hoje já não vão existir daqui a alguns anos e profissões que ainda não existem hoje surgirão. E não é tão difícil de acreditar nisso. Afinal, há 30 anos atrás nem o Google nem a Apple existiam. Em setembro de 2013, dois pesquisadores de Oxford, Carl Benedikt Frey e Michael A. Osborne, pesquisaram a probabilidade de diferentes profissões serem dominadas por algoritmos de computador nos próximos 20 anos e estimaram que 47% dos empregos nos EUA estão em alto risco de extinção. Operadores de telemarketing, entregadores, cozinheiros, garçons, advogados, guias turísticos, padeiros, motoristas, pedreiros e carpinteiros são exemplos de profissões com altíssima probabilidade de desaparecerem.

Drone de entrega voando sobre uma cidade.
Drones de entrega já são uma realidade

Pode até ser que um profissional de um ofício que se extinguiu se reinvente para que esteja apto a uma nova profissão. Porém, isso deve levar anos, e, depois desses anos, provavelmente essa outra profissão também não exista mais. Talvez, em 2050, os avanços tecnológicos já tenham trazido alguma forma de auxiliar esses não-empregáveis com alimentação e suporte básico para viverem, porém, o problema é que essa enorme massa de ociosos vai enlouquecer porque não vão encontrar nada significante para fazerem. Até a criação artística, que se pensava estar protegida da inteligência artificial, já está aos poucos sendo dominadas por algoritmos. Portanto, essa classe de trabalhadores pode acabar nas drogas, vídeo-games e mundos virtuais 3D.

Há quem diga que existem funções que irão para sempre ser melhor desempenhadas por humanos. Mas, no mundo tecnológico, o “para sempre” dura 10 ou 20 anos. Há pouco tempo atrás reconhecimento facial era o exemplo favorito de algo que os bebês realizam com facilidade, mas que escapava até mesmo dos computadores mais poderosos. Hoje, os programas de reconhecimento facial são capazes de identificar pessoas com muito mais eficiência e rapidez do que os humanos. Em 2004, os professores Frank Levy, do MIT, e Richard Murnane, de Harvard, publicaram uma pesquisa sobre o mercado de trabalho, listando as profissões com maior probabilidade de serem submetidas à automação. Motorista de caminhão foi dada como um exemplo de profissão que não poderia ser automatizada no futuro previsível. Apenas 10 anos depois, o Google e a Tesla não só podem imaginar isso, como também já estão fazendo.

Na verdade, com o passar do tempo, tornou-se mais e mais fácil substituir os seres humanos por algoritmos de computador, não apenas porque os algoritmos estão ficando mais inteligentes, mas também porque os humanos estão se profissionalizando. Os antigos caçadores/coletores dominavam uma grande variedade de habilidades para sobreviver, e é por isso que seria imensamente difícil projetar um caçador/coletor robótico. Tal robô teria que saber como preparar pontas de lança de pedras, encontrar cogumelos comestíveis em uma floresta, rastrear um mamute, coordenar um ataque com uma dúzia de outros caçadores e usar ervas medicinais para enfaixar feridas. No entanto, um taxista ou um cardiologista é especializado em um nicho muito mais restrito que um caçador-coletor, o que facilita sua substituição por IA (inteligência artificial). A IA não está nem perto da existência humana, mas 99% das qualidades e habilidades humanas são simplesmente redundantes para o desempenho da maioria dos trabalhos modernos. Para a IA tirar os seres humanos do mercado de trabalho, só precisa nos superar nas habilidades específicas que uma determinada profissão exige. Falamos sobre a vantagem de dominar diversas habilidades neste outro post.

Mulher com óculos virtual interagindo com objetos virtuais sobrepostos ao mundo real.
Realidade Aumentada

Como nós não sabemos ainda como será o mercado de trabalho em 2030 ou 2040, fica difícil saber o que ensinar para nossos filhos. A maioria do que eles atualmente aprendem na escola provavelmente será irrelevante quando tiverem 40 anos. Tradicionalmente, a vida tem sido dividida em duas partes principais: um período de aprendizado, seguido por um período de trabalho. Muito em breve esse modelo tradicional se tornará totalmente obsoleto, e a única maneira de os humanos permanecerem no jogo será continuar aprendendo por toda a vida e se reinventar repetidamente.

Traduzido e adaptado de:

Harari, Y. N. (2016). Homo Deus: A brief history of tomorrow. Random House.

Harari, Y. N. (2017). The meaning of life in a world without work. The Guardian.

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